"Esvaziou-se a si mesmo..." (Flp 2,7)

Wednesday, 24 October 2018

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O que diz hoje Teresa de Ávila a Igreja? PDF Imprimir E-mail

TeresaDAvila

Teresa possui um humor que te faz sorrir e ao mesmo tempo diz verdades

As palavras  são válidas  se como diz Jesus, “passará o mundo mas as minhas palavras não passarão,  por que? São fundamentadas não sobre coisas passageiras, efêmeras mas sim sobre algo de sólido, de válido, de eterno. Assim são os livros: daqui a 100 anos pouquíssimos livros que foram escritos na ânsia de dar respostas imediatas a problemas imediatos e com uma linguagem imediatista, restarão.  Serão todos escondidos em bibliotecas e não consultados por ninguém. Ou serão colocados na balança de papel velho e valerão pelo seu peso....dois centavos.  Há livros em todas as religiões que são ouro puro e quanto mais o tempo passa, mais ficam melhores. São água viva que nasce e mata a sede.  Há livros sagrados que sabem dar uma resposta aos problemas mais íntimos e angustiantes do ser humano. Insuperáveis. Não me refiro somente a Bíblia sagrada que para mim é o livro dos livros, é uma luz que brilha e não se consegue apagar; são palavras de ouro que como chuva mansa caíram do céu e continuam a fecundar os áridos desertos.  Como não pensar nos escritos das antigas religiões gregas ou da India, da China ou do Japão, dos astecas, de todos os povos... Mas ao lado deles existe também os escritos que são chamados “as maravilhas da espiritualidade”, e entre essas sete maravilhas da espiritualidade estão os escritos de Teresa de Ávila, esta mulher lutadora, de fino espirito critico. Não devemos duvidar e nem esquecer que todos os místicos são terrivelmente críticos. Ninguém é mais místico do que Jesus e ninguém mais critico do que ele.  Mas a critica dos místicos, dos santos, fere para curar; desconcerta e desorienta para orientar a vida.

Teresa de Ávila possui um humor que te faz sorrir e ao mesmo tempo diz verdades que não deixam espaço para a monotonia e nem para uma vida de falsa tranquilidade. `As vezes na minha oração me vem `a cabeça um pensamento que me “persegue dia a dia e noite a noite”. Até parece que está maduro e é preciso dar-lhe vida e faze-lo nascer. Um pensamento que faz tempo que me agita, especialmente neste V Centenário de Santa Teresa:  o que Teresa de Jesus diria a Igreja de hoje? Qual seria a sua mensagem? E como a Igreja reagiria?

Não há duvida, segundo o meu pobre parecer, que alguns teólogos dos mais aficcionados `a teologia se sentiriam incomodados  com as visões desta mulher andariega, que sobe na cátedra e dá conselhos, escreve livros e diz coisas que parecem vir do outro mundo. Os seus livros não receberiam sempre uma apreciação de louvor mas de critica. Como aceitar, por exemplo, tranquilamente, a afirmação teresiana “o que seria a Igreja sem as mulheres” ou quando ela diz “é interessante como no Evangelho sempre Jesus foi duro e repreendeu os homens e sempre foi doce e nunca repreendeu uma mulher”.

É um feminismo que fere o nosso machismo escondido mas presente.

Teresa diria a Igreja que não se preocupe com o poder, com sua força,  que não condene mas que seja misericordiosa. Há uma profunda sintonia entre o pensamento do Papa Francisco e Teresa de Ávila. Os dois combinam nas ideias, na pastoral, na teologia e especialmente em “ir `as periferias para evangelizar.” Teresa não aguentou mais ficar fechada no Carmelo da Encarnação, perdendo “tempo” em encontros vazios com as visitas das pessoas ricas e importantes que não sabendo o que fazer na própria casa e na vida iam ao Carmelo para fazer perder tempo e vocação `as monjas. E hoje existem também tantas pessoas que preenchem o tempo com vãos discursos de espiritualidade de “sala de espera”.

Uma vez uma rica senhora colocou `a disposição de Teresa um “carrão de luxo” e Teresa usou sem muitas preocupações mas uma pessoa do “povo” vendo isso ficou escandalizada e disse “é esta a monja que chamam de santa e anda com o tal carrão?” Teresa escutou, desceu e nunca mais na sua vida usou estes carros de luxo puxados com belos cavalos mas usava “carrinhos populares” e não queria que suas freiras e monjas nas viagens usassem carros caros.

Teresa diria a Igreja que sem uma vida espiritual de qualidade, entra na vida a “mundanidade espiritual”, isto é, uma espiritualidade aparente, consumista, de confeitarias, dietética. Ela queria uma igreja “amiga forte de Deus”, baseada no fundamento da oração, da vida interior, da mortificação, da pobreza.

Aqui estão os segredos da atualidade dos escritos de Teresa de Ávila. Ela fala de coisas que aconteciam ontem e hoje, de problemas de ontem que hoje estão aqui vivos e vegetos. Teresa toca no âmago do “câncer” que é o de sempre:  comodismo, riqueza, sensualidade, busca de prazer, de vida fácil, de dinheiro e de luxo....câncer que estava presente já no tempo de Jesus. É só ler o Evangelho, era presente no tempo de Abraão e de Moisés,  no tempo de Francisco  de Assis, de Caterina de Siena, do Papa João Paulo II e do Papa Francisco e depois dele. Necessitamos de santos que quando abrem a boca nós podemos dizer com sinceridade “é isso mesmo, devo me converter se quero ser cristão.”

Teresa diria a Igreja “que não podemos nos perder em bisbilhotices”, quando há problemas grandes por aí, milhões de pessoas que morrem de fome, que não conhecem o Cristo,. Quando avança um legalismo que condena “a torto e `a direita”. Quando parece aumentar o numero dos que pregam para os outros  uma vida austera e para eles, a vida cômoda.

Ainda para terminar: como dizia um teólogo pouco depois de sua morte, “lendo os escritos de Teresa me parece ler uma pagina do Evangelho”.  Teresa é necessária na Igreja para que a Igreja não adormeça na sua tranquilidade e especialmente para que o Carmelo não seja um “museu” de recordações do passado glorioso, nem um jardim florido mas sim uma videira que dá frutos e frutos abundantes.

 

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Frei Patrício Sciadini, Superior Carmelita no Egito

 

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