"Esvaziou-se a si mesmo..." (Flp 2,7)

Tuesday, 16 October 2018

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50 anos do Concílio Vaticano II: vocação universal à santidade PDF Imprimir E-mail

Concilio Vaticano II 02A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, tratou, em seu quinto capítulo, a respeito da "vocação de todos à santidade na Igreja", ensinando que "os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade" [1].

O debate na aula conciliar. – Uma das grandes discussões que antecederam a publicação definitiva da Lumen Gentium, em 1964, era aquela relativa à vida religiosa. Estava claro para toda a Igreja que as pessoas que se consagravam a Deus pelos votos de pobreza, castidade e obediência, estavam em "estado de perfeição". Como explica o Doutor Angélico:

"Como a suma perfeição humana consiste em o espírito do homem ocupar-se com Deus, e as três tarefas mencionadas [os votos religiosos] parecem que o dispõem para tal ao máximo, vê-se que elas convenientemente pertencem ao estado de perfeição, não que sejam a perfeição, mas porque são disposições para a perfeição, que consiste em ocupar-se com Deus. E isto é claramente manifestado pelas palavras do Senhor que aconselha a pobreza, quando diz: 'Se quiseres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e segue-me' (Mt 19, 21), como se a perfeição da vida estivesse constituída no segui-lo." [2]
O que inquietava os padres conciliares era como falar da santidade em relação ao restante do povo de Deus. Embora o chamado à perfeição tenha sido lançado a todos, desde o início da pregação evangélica (cf. Mt 5, 48), tal lição se tinha obscurecido em certa medida e a visão geral das pessoas era a de que a santidade era para uma elite, sendo que a vasta maioria dos salvos deveria passar pelo purgatório. Isso sem falar da quase totalidade das almas, que seria condenada ao inferno.

Influências heréticas. – Essa visão se agravou, em grande parte, por conta da influência de duas heresias: o protestantismo e o jansenismo.

O protestantismo porque, como já se viu, Martinho Lutero não acreditava na santidade. Na doutrina protestante, a justificação se dá mediante a fé, entendida como "a convicção infalível de que Deus, por causa de Cristo, não nos imputará as nossas faltas, mas tratar-nos-á como se fôssemos realmente justos e santos, ainda que, em nosso interior, sejamos os mesmos pecadores de antes" [3]. É o que se pode depreender da profissão luterana conhecida como Fórmula de Concórdia:

"Mas, quando ensinamos que, por meio da ação do Santo Espírito, somos renascidos e justificados, o sentido não é que, após a regeneração, não remanesça nenhuma injustiça no ser e na vida dos que foram justificados, mas de que Cristo cobre todos os seus pecados, mesmo que, nesta vida, estes ainda pertençam à sua natureza, juntamente com a perfeita obediência de Cristo. Independente disso, os justificados são declarados e imputados justos e piedosos pela fé e por causa da obediência de Cristo (a qual Ele prestou ao Pai por nós, desde o Seu nascimento até a Sua morte ignominiosa na cruz), ainda que, por conta de sua natureza corrompida, eles ainda sejam e permaneçam pecadores até o túmulo (enquanto estiverem nesse corpo mortal)." [4]
Na visão protestante, portanto, o homem, pecador até à medula, só poderia entrar no Céu mediante a fé, que seria como um "manto" a encobrir a essência má e pecadora do ser humano. Os justificados não seriam, pois, santos, mas simples pecadores escondidos por debaixo de um véu.

A doutrina luterana da sola fide chega ao seu extremo em uma conhecida carta de seu fundador a Melâncton, em 1521, na qual ele se expressa nos seguintes termos: "Seja pecador e peque fortemente, mas confie e se alegre mais fortemente ainda em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo"; "Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; deste não nos separará o pecado, inclusive ainda que forniquemos e matemos milhares e milhares de vezes ao dia" [5]. A tais palavras – vindas da boca do próprio pai do protestantismo –, não é possível responder senão com a indagação de São Paulo: "Nós que já morremos para o pecado, como vamos continuar vivendo nele?" (Rm 6, 2).

Os erros do jansenismo [6], por sua vez, terminavam se aproximando muito da doutrina calvinista da predestinação. Segundo o famoso livro Augustinus, de autoria de Cornélio Jansen († 1638), o homem seria um mero joguete na ação de duas forças irresistíveis: a graça e a concupiscência. Para os jansenistas:

"Como resultado do pecado de Adão, nossa natureza, privada dos elementos essenciais à sua integridade, é radicalmente corrupta e depravada. Dominada pela concupiscência – que em cada um de nós constitui propriamente o pecado original –, a vontade é impotente para resistir; tornou-se puramente passiva. Não pode escapar à atração do mal, exceto se for ajudada por um movimento da graça que supere e triunfe sobre a força da concupiscência. Nossa alma – doravante obediente a nenhum motor senão o do prazer – está à mercê do deleite, terreno ou celeste, o qual, pelo tempo em que existe, atrai-a com grande força. Ao mesmo tempo inevitável e irresistível, esse deleite, se vem do céu ou da graça, conduz o homem à virtude; se vem da natureza ou da concupiscência, obriga o homem ao pecado. Em ambos os casos, a vontade é fatalmente movida pelo impulso preponderante. Os dois deleites, diz Jansênio, são como os dois braços de uma balança, dos quais um não pode se elevar a menos que o outro se abaixe, e vice-versa. Assim, o homem – de modo irresistível, ainda que involuntário – faz ou o bem ou o mal, dependendo se está dominado pela graça ou pela concupiscência; ele nunca resiste nem a um nem a outro." [7]
Como consequência dessa doutrina, tem-se a quinta proposição de Jansênio condenada pela Igreja ("É semipelagiano dizer que Cristo morreu e derramou seu sangue por todos os homens irrestritamente"), a qual chegava a negar a redenção de Cristo por toda a humanidade: de fato, Nosso Senhor teria morrido somente pelos predestinados, que consistiriam em um número muito reduzido; a grande massa dos cristãos estaria irremediavelmente condenada ao inferno. São da época dessa heresia os crucifixos que retratavam Jesus com os braços quase juntos, simbolizando o pequeno número dos que seriam salvos.

Embora fossem reprovadas pela Igreja em inúmeros documentos, ambas as heresias deixaram as suas influências no ambiente eclesial,Concilio Vaticano II deixando na neblina, por assim dizer, a verdade católica sobre a santidade. Era bastante comum a impressão de que as realidades místicas e espirituais estavam realmente reservadas a um grupo reduzido e alheias à maior parte dos fiéis. Nos próprios carmelos, eram proibidas as obras de São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, tão convencidos estavam os formadores e diretores espirituais dessa opinião.

Por isso, os padres do Concílio Vaticano II decidiram inserir o tema da "vocação universal à santidade" em um capítulo especial do esquema sobre a Igreja. A princípio, as considerações sobre a santidade constariam no mesmo capítulo em que seria tratada a vida religiosa. No intuito de restaurar a doutrina católica sobre o chamado de todos na Igreja à perfeição da caridade, porém, os padres conciliares dedicaram o quinto capítulo da constituição Lumen Gentium especificamente a esse ensinamento. As lições do Concílio nesse sentido deveriam ser chamados propriamente de uma "restauração". Algumas pessoas usam o termo "revolução", mas ele não é adequado, porque pressupõe uma reviravolta, quando, na verdade, essa doutrina foi simplesmente colocada em seu devido lugar e melhor aclarada pelo Magistério.

A contribuição dos dominicanos. – Para a restauração desse ensino, contribuíram muito os trabalhos geniais dos teólogos dominicanos. Entre os muitos nomes a serem citados, poder-se-ia começar pelo do padre António Royo Marín, O. P. († 2005), grande sistematizador da teologia tomista, o qual, em sua obra Espiritualidad de los Seglares, dedicou preciosas linhas à "vocação universal à santidade", proclamada pelo Vaticano II.

Citem-se ainda:

O frade Juan González Arintero, O. P. († 1928), autor da valiosa obra Cuestiones Místicas o sea Las Alturas de la Contemplación Mística Accesibles a Todos;
O padre Ambroise Gardeil, O. P. († 1931), autor da obra Le Saint-Esprit dans la Vie Chrétienne ["O Espírito Santo na vida cristã"], na qual ele explica que os dons do Espírito, que tornam os homens capazes da ação divina, foram colocados em todos os batizados e, portanto, todos são chamados à santidade;
O grande Réginald Garrigou-Lagrange, O. P. († 1964), o qual empreendeu a importante síntese entre a teologia de Santo Tomás de Aquino e a mística carmelitana de São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, principalmente em sua obra Perfection chrétienne et contemplation selon saint Thomas d'Aquin et saint Jean de la Croix ["Perfeição cristã e contemplação segundo Santo Tomás de Aquino e São João da Cruz"];
O padre Marie-Michel Philipon, O. P., responsável por fazer o diálogo de toda essa tradição mística com a espiritualidade de Santa Teresinha do Menino Jesus.
Em que consiste a santidade. – O padre Royo Marín define a santidade de três modos: diz que a) o santo é "quem alcançou a perfeita identificação com a vontade de Deus"; b) "quem alcançou a perfeição da caridade"; e c) "quem alcançou a plena configuração a Jesus Cristo". Nesse caminho para cumprir a vontade divina, a Igreja sempre discerniu três vias – ou três graus de caridade –, as quais são chamadas tradicionalmente de purgativa, iluminativa e unitiva. Essa distinção se encontra, por exemplo, em Santo Agostinho [8] e foi convenientemente explicada por Santo Tomás de Aquino:

"Os diversos graus de caridade distinguem-se pelos diversos esforços aos quais o homem é conduzido para o progresso da sua caridade. Primeiramente, sua principal preocupação deve ser afastar-se do pecado e resistir aos atrativos que o conduzem para o que é contrário à caridade. E isso é próprio dos incipientes, que devem alimentar e estimular a caridade, para que ela não se perca. – Depois, vem uma segunda preocupação, que leva o homem principalmente a progredir no bem. Tal preocupação é própria dos proficientes, que visam sobretudo fortificar sua caridade, aumentando-a. – Enfim, a terceira preocupação é que o homem se esforce, principalmente, por unir-se a Deus e gozá-lo. E isso é próprio dos perfeitos, que 'desejam morrer e estar com Cristo'." [9]
Importa discernir que o caminho da perfeição, mais do que algo que nós fazemos, é uma realidade que Deus opera em nós. É Ele quem, por meio de Sua graça e dos sacramentos, vai mudando a nossa alma, transformando o nosso coração de pedra em coração de carne (cf. Ez 36, 26) e fazendo crescer em nós a caridade. Nessa purificação passiva consiste essencialmente a vida mística, enquanto a vida ascética diz respeito aos esforços ativos empreendidos pela alma para se purificar e subir na escada da santidade.

Recomendações

AV. 117. O caminho da perfeição
Referências

Constituição Dogmática Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), 40.
Suma contra os Gentios, III, 133, 3.
POHLE, J. Justification. In: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1910.
The Solid Declaration of the Formula of Concord, III, 22.
Martinho Lutero, Carta a Melâncton (1.º de agosto de 1521).
Cf. DS 2001-2007.
FORGET, J. Jansenius and Jansenism. In: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1910.
Cf. Tractatus in Epistolam Ioannis ad Parthos, V, 4: PL 35, 2014.
Suma Teológica, II-II, q. 24, a. 9.
Bibliografia

ARINTERO, Juan González. Cuestiones Místicas. 2. ed. Salamanca, 1920. 612p.

GARDEIL, Ambroise. Le Saint-Esprit dans la Vie Chrétienne. Juvisy, 1935.

GARDEIL, Ambroise. O Espírito Santo na vida Cristã. Permanência, 2005. 128p.

GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Perfection chrétienne et contemplation selon saint Thomas d'Aquin et saint Jean de la Croix. Saint-Maximin: Éditions de La Vie Spirituelle, 1923. 502p.

MARÍN, Antonio Royo. Espiritualidad de los seglares. 1. ed. BAC, 1967.

__________________. Ser o no ser santo... Ésta es la cuestión. BAC: Madri, 2000.

__________________. Teología de la Perfección Cristiana. 4. ed. BAC: Madri, 1962.

 

Pe Paulo Ricardo

 

 

 

 

 

 

Padre Paulo Ricardo

 

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