"Esvaziou-se a si mesmo..." (Flp 2,7)

Wednesday, 24 October 2018

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Kénosis, 19 de janeiro de 2013.

"13 Em todo o pretório e por toda parte tornou-se conhecido que é por causa de Cristo que estou preso. 14 A maior parte dos irmãos, ante a notícia das minhas cadeias, cobrou nova confiança no Senhor e maior entusiasmo em anunciar sem temor a palavra de Deus. 15 É verdade que alguns pregam Cristo por inveja a mim e por discórdia, mas outros o fazem com a melhor boa vontade. 16 Estes, por caridade, sabendo que tenho por missão a defesa do Evangelho; 17 aqueles, ao contrário, pregam Cristo por espírito de intriga, e não com reta intenção, no intuito de agravar meu sofrimento nesta prisão. 18 Mas não faz mal! Contanto que de todas as maneiras, por pretexto ou por verdade, Cristo seja anunciado, nisto não só me alegro, mas sempre me alegrarei. 19 Pois sei que isto me resultará em salvação, graças às vossas orações e ao socorro do Espírito de Jesus Cristo." (Filipenses 1,13-19)

Aos membros da Comunidade Kénosis, seguidores e seguidoras de Jesus Crucificado, a paz de Cristo!

Irmãos e irmãs, filhos e filhas da Comunidade Kénosis, trago cada um de vocês dentro do coração. Penso constantemente em vocês que foram chamados por Jesus e atraídos para perto dEle através da via kenótica.

Hoje, em minha meditação sobre o mistério que é a vocação kénosis, recordei-me deste texto acima mencionado, retirado da carta de São Paulo aos cristãos de Filipenses. Fiquei imaginando a situação do Apóstolo dos gentios: preso por causa de Cristo e impedido de exercer publicamente o seu chamado de anunciar a Palavra de Deus. Pregador e formador, Paulo não sofre em ver sua liberdade restringida. Ele não reclama o seu "direito de ir e vir". Ele não parece sofrer a perda de seus direitos pessoais e de nada disso faz questão. Sua dor, ao que nos parece, consiste em ver a tentativa dos homens de tentar impedir o avanço da Palavra de Deus.

As notícias que chegam para ele enquanto está na prisão, o enchem de alegria. A comunidade - "a maior parte dos irmãos" -, ao saber de sua prisão, havia "cobrado nova confiança no Senhor e maior entusiasmo em anunciar sem temor a palavra de Deus". Essa notícia trouxe mais alegria ao coração de Paulo do que o futuro comunicado de sua liberdade. Saber que em sua ausência e impedimento de exercer publicamente o seu carisma, os "filhos da comunidade" haviam assumido esse carisma e tomado parte em sua vocação, deixou Paulo feliz e realizado.

Acredito que este sentimento que envolveu o Apóstolo deva ser semelhante ao que ocorre no coração de cada fundador de comunidade quando, em sua ausência e impedimentos, os filhos e filhas da comunidade não permitem que esta vocação deixe de ser respondida. A Comunidade, ou seja, o conjunto de todos os membros consagrados, como legítima extensão e complemento de uma vocação confirmada por Deus, não poderá deixar que esfrie ou morra tão sublime dom de Deus.

Paulo, na prisão, não espera por algum tipo de consolação humana. Também não está na expectativa de alguma visita que possa amenizar seu sofrimento e, por isso, não o vemos reclamando alguma falta de atenção por parte de sua comunidade. Absolutamente! Ele não sofrerá de carência afetiva. Sabe que sua vida não foi alicerçada sobre bajulações, mas sobre Cristo crucificado, em quem vê-se apoiado e configurado em suas dores. Ele não espera consolações para seus problemas pessoais. Aliás, Paulo estava diante de um único problema que poderia ser digno de sofrimento: o impedimento de anunciar a Palavra de Deus.

A dor de Paulo, no entanto, é transformada em alegria pela atitude de sua comunidade. Para consolá-lo, a comunidade fez mais que iniciar algum mero processo para libertá-lo da prisão. Antes, ela assumiu e garantiu, com firmeza e coragem, o anúncio da Palavra de Deus. Sabia ela que era isso que o faria feliz.

A Palavra de Deus "não se deixa acorrentar" e, por isso, ela deve permanecer livre. Para Paulo, se suas cadeias favorecem de algum modo a ampliação e eficácia desse anúncio de Cristo, ele se "alegra e sempre se alegrará".

Quantos ensinamentos podemos retirar dessas sagradas palavras. Quando o próprio Deus e sua Palavra se tornam o centro de nossa vida, tudo o mais se torna secundário e desprezível. "A quem tem Deus, nada falta. Só Deus basta!" (Sta. Teresa D'Avila).

É, sem dúvida, um contra-senso reclamar as coisas do mundo quando se diz possuir Deus. Se Deus se deixou por mim possuir, o que ainda precisarei buscar que Ele já não me tenha dado por sua simples inabitação? Por que sofrer a ausência de algo que nem me faria falta? Que insanidade essa nossa atitude de reclamar aquilo que não temos direito...

Um doutrina kenótica aqui deve sobressair. Diante da difícil situação em que se encontra, Paulo deixa escapar um testemunho de sua compreensão e prática kenótica, ao dizer: "pois sei que isto me resultará em salvação". Que sabedoria do alto manifestada nestas palavras! Que grande maturidade de consciência cristã essa que o leva a compreender que absolutamente nada em nossa vida poderá escapar aos olhos de Deus. Paulo bem sabe “que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios”. (Rm 8,28). Por isso, ele pode aqui afirmar “sei que isto me resultará em salvação”, ou seja, “a nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável” (2Cor 4,17). Aleluia!

Filhos e filhas da Comunidade Kénosis, foi nos ensinado pelo Espírito que devemos “aceitar tudo o que nos acontecer, sem murmurar, com alegria”. Essa regra fundamenta-se na confiança de que Deus dirige a nossa vida e nada poderá nos acontecer sem que Ele o queira. Todas as coisas, absolutamente todas as coisas, estão sob Sua autoridade. Nossa vida está em suas mãos e precisamos aprender a confiar radicalmente nessa verdade. Precisamos crer firmemente que todos os acontecimentos, de uma forma ou de outra, resultará para nós em salvação.

Irmãos e irmãs, não fiquemos alterados em nossos pensamentos com as coisas que nos acontecem, sobretudo, aquelas que não somos responsáveis tenhamos por sua existência. Quando o nosso pecado for o motivo que desencadeia uma situação difícil, corramos logo para junto de Deus e busquemos reconciliação, a fim de cortar o mal pela raiz. Depois, busquemos reparar os danos de tão grande mal. Mas quando as realidades do dia-a-dia nos proporcionam algum tipo de sofrimento ou dificuldade, não percamos nossa paz interior por isso. Não tenhamos pressa em fugir daquilo que poderia trazia grandes benefícios à nossa alma. Deixemos Deus cuidar desse tipo de acontecimento e gastemos o nosso tempo cuidando de nossa salvação. A preocupação em buscar compreender ou resolver esse tipo de problema nos faz perder tempo de trabalhar dm nossa perfeição.

Digo isto, irmãos e irmãs, pois vejo a inquietação que ficam alguns filhos de nossa Comunidade quando lhes advém alguma contrariedade. Como o inimigo facilmente nos rouba o precioso tesouro do tempo, induzindo-nos a ficar comentando com as pessoas e tentando entender “o por quê” das coisas. Quando agimos dessa forma, perdemos o nosso tempo e fazemos os irmãos perderem também o seu tempo tendo que compartilhar de coisas tão vãs.

“Aceita tudo o que te acontecer!” Não vos descuidem de vossa salvação com inutilidades. Fujam daqueles que vos procuram a fim de serem bajulados; e não fiquem a todo tempo falando de vossos problemas, pois, por trás dessa “inocente” partilha se esconde um mal desejo de ser consolado, ou melhor, bajulado. As almas que esperam esse tipo de coisa permanecem à beira do inferno. Digo isto porque a bajulação é viciante e torna cativa a alma. Uma vez atendida, a alma passará a reclamar constantemente desse mal costume. Livrem-se desse mal e encontrarão a paz interior.

Diante de todas as coisas na vida devemos sempre pensar “sei que isto me resultará em salvação”. Com esse pensamento kenótico, aquilo que poderia ser tido como terrível mal e que nos causaria grande desespero, tornar-se-á em fonte de alegria - como ocorreu com Paulo - e demonstraremos desta forma, possuir grande confiança em Deus.

Alguns filhos da Comunidade se questionam como é possível “aceitar tudo o que nos acontece, sem murmurar e com alegria”. O exemplo de Paulo esclarece essa regra kenótica. Somente é possível viver com perfeição essa regra quando Deus e sua Palavra se tornam o centro de nossa vida. Quando não mais se faz caso da própria vida, já não se encontra mais razão para murmurar. Murmuram aqueles que buscam advogar suas próprias causas, defenderem seus próprios interesses.

Toda murmuração está fundamentada na certeza de possuir “direitos”. Quando pensamos ter direito e somos privados dele, murmuramos e reclamamos por justiça. A justiça se fundamenta no direito, e a murmuração, na privação do direito. Ora, quer ver-se livre da murmuração e possuir a paz interior, julgue não possuir direitos. Confie na justiça de Deus e se alegre. Vença assim a murmuração na raiz.

E qual o caminho para renunciar ao direito, abrir mão daquilo que seria justo? O amor! Quem ama possui todas as coisas e nada lhe falta. No amor não há apegos. Nele, perder é lucro, renunciar é ganhar; e esvaziar-se de tudo é deixar espaço para o que realmente importa: Deus!

Filhos e filhas da Comunidade Kénosis, não façam caso quando vos tirarem algo. Estejam certos de que se não vos tirarem a Deus, em nada terá diminuído o vosso tesouro. Aliás, deixem que esses “anjos” façam o trabalho deles e vos ajudem a livrar-se de tantos pesos que vos atrasam no caminho. Sejam gratos a Deus por permitir que vos sejam tirado aquilo que é excedente. Lembrem-se do salmista que dizia com grande sabedoria: “Se vos possuo, nada mais me atrai na terra.” (Salmos 72,25).

O amor nos dá a posse de Deus! Não que Deus se torne objeto de posse humana, mas Ele se deixa possuir no amor, pois Ele é amor (1Jo 4,8). É próprio do Amor se tornar prisioneiro de quem ama! O Amor se deixe aprisionar e mantém em liberdade o amante e o amado. Quem ama adquiriu o justo direito, coisa que ninguém poderá tirar-lhe, e já não mais precisará lutar por outros direitos.

Quem ama, portanto, não pode murmurar. Ao contrário, para quem ama, todas as coisas e acontecimentos resultam em salvação. E esse é o nosso motivo de alegria.

Irmãos e irmãs, queria eu poder continuar refletindo sobre estas coisas agora, mas não o poderei. Retomaremos esse assunto em tempo oportuno. Por hora, peço a Deus que os mantenha firme nesta certeza de que Deus está cuidando de todas as coisas e que não temos razões para nos inquietarmos com nada.

Fraternalmente,

 

RogerioSoares

 

Rogério Soares

Fundador da comunidade Kénosis

 

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