"Esvaziou-se a si mesmo..." (Flp 2,7)

Thursday, 19 September 2019

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São João da Cruz – Doutor da Igreja PDF Imprimir E-mail

SJoao da CruzDizem que a santidade está de mãos dadas com a loucura. Se existe uma “sã loucura” esta é própria dos santos, que toma dos “loucos normais” a contradição que os caracteriza. Neles, aquilo que parece inconciliável encontra feliz conexão. Os radicais, no sentido de penderem por um único lado da balança da vida, são os homens comuns, ora rastejantes sobre a terra, alienados das coisas do alto, ora perdidos nas realidades do alto, alienados das coisas da terra. Os santos não. Destes tudo se pode esperar, são imprevisíveis, admiravelmente terrenos, surpreendentemente divinos!

São João da Cruz é baluarte da comunidade Kénosis, exemplo de santidade, perseverança e esvaziamento de si em busca do amado. Vivido entre 1542 e 1591 na Espanha, sua vida é marcada, por um lado, pela dor lhe infligida pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior.

Órfão de pai aos três anos, João de Yepes – seu nome civil – prova o esforço da mãe que procura corações benevolentes a garantir-lhe a sobrevivência. Ele estudou no Colégio Jesuíta em Medina e já era aprendiz com a idade de 15 anos no hospital de Nossa Senhora da Conceição. Em 1563 ele entrou para o Monastério das Carmelitas em Medina do Campo e tomou o nome de João de São Mathias, e após o noviciado foi enviado para o monastério Carmelita perto da Universidade de Salamanca. Ele estudou ali de 1564 a 1568 e foi ordenado em 1567.

João sentiu que os Carmelitas estavam com excesso de frouxidão e ele considerou passar para a Ordem mais dura dos Cartuzianos, mas foi dissuadido por Santa Tereza d‘Ávila. Ela logo depois lançava a famosa reforma na Ordem das Carmelitas. João imediatamente conseguiu permissão para aderir ao rígido ascetismo da regra original da ordem e imediatamente se juntou a Santa Teresa em sua causa. Os dois se tornaram bons amigos e eles em pouco tempo estabeleceram o primeiro monastério dos Descalços em Duruelo. No ano de 1568, torna-se o primeiro carmelita descalço, assume o novo nome de João da Cruz e vive momentos de indescritível felicidade, num casebre perdido da zona rural de Ávila. A partir daqui empenha-se, até o fim da vida, em diversas tarefas entre os carmelitas descalços que se veem em ligeira expansão.

Através dos anos João sofreu grandes provações. Sofreu vários julgamentos e severas oposições às suas reformas mesmo dentro da Ordem, especialmente daqueles frades que recusavam a validade dos Carmelitas Descalços e tramavam intrigas e esquemas contra Santa Tereza d’Ávila e São João da Cruz.

Em 1577, por exemplo, ele ficou preso em uma cela no Monastério de Toledo, escapando após nove meses com uma corda feita de pedaços de pano e subiu para a liberdade no dia da Festa da Ascensão. Ele se refugiou no Monastério de El Calvário em Andaluzia.  No meio de um sofrimento físico e moral somente imaginável por quem passou pela dura realidade da prisão, brotam do seu coração as mais belas poesias místicas já escritas, que revelam a experiência de um Deus que se faz prisioneiro do nosso amor.

Ele viveu em constante ameaça da Inquisição Espanhola e foi muito maltratado por Nicola Doria eleito superior da Ordem dos Carmelitas Descalços em 1583. A política de Doria era tão cruel que João se opôs a ele no Conselho Geral em 1591. Isto levou a Doria a retirar dele todos os postos e bani-lo para o Monastério de La Peñuela, em Andaluzia.

No ano de 1591, quando, em meio a uma surda perseguição dos seus próprios superiores, alegra-se por ver aproximar-se o almejado momento de poder ver rompida a tênue tela que o separava do seu divino amado. João morreu em 14 de dezembro de 1591 no Monastério de Ubeba.

São João da Cruz deixou-nos escritos de maravilhosa profundidade de vida espiritual. Seus escritos revelam a densidade de vida que ele mesmo viveu, e constitui doutrina insuperável, pela originalidade das considerações, a respeito do itinerário da vida cristã, desde seus primeiros passos às mais altas realizações nesta vida. A forma que envolve o conteúdo dos ensinamentos do místico doutor é de igual modo, plena de beleza poética, pois somente a poesia é capaz de expressar sentimentos e realidades indizíveis.

Além das cartas, de pensamentos e ditos e outros escritos menores, São João da Cruz deixou-nos quatro grandes escritos que se inter-relacionam e onde desenvolve o dinamismo que toda pessoa humana é chamada a percorrer em sua relação com Deus. Tais obras são: Subida do Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de Amor. As duas primeiras obras acentuam a purificação como passagem e caminho que concretiza a união, purificação que envolve atitudes que têm por protagonismo ora a pessoa que responde à graça, ora Deus mesmo que, aos passos da pessoa, toma o processo em suas mãos. As outras obras, ainda que tocando a realidade da purificação, centram sua atenção na vivacidade do amor que tudo pervade e nas consequências positivas da união com Deus, ideal último para o qual todos nós fomos criados.

O centro de tudo é sem dúvida o amor: força propulsora do processo, objeto de purificação que consiste em concentrar toda a sua força para Deus, fim e ideal do caminho. A união com Deus é união de amor com aquele que é amor. Ordenado para Deus, nosso amor recupera sua veemência, sua característica de força e movimento, afinal o amor é forte como a morte e sua medida é ser sem medida. Tão infinito como Deus é o amor, e, do mesmo modo como ele nos amou, à loucura, quando o amamos, somos levados a cometer por ele loucuras de amor. “Com ânsias de amores inflamada”, diz um trecho de uma sua poesia, é assim que a alma caminha em seu caminho com Deus e para Deus. Amando assim, este santo carmelita tornou-se, sem dúvida, um louco, louco de paixão por Deus, e nenhum de nós que dele se aproxima e por ele deixa-se guiar, pode deixar de almejar a mesma loucura, de um mesmo amor.

São João da Cruz permanece um dos mais expressivos e profundos teólogos místicos da historia da Igreja. Foi beatificado em 1675, canonizado em 1726 pelo Papa Benedito XIII e declarado Doutor da Igreja em 1926 pelo Papa Pio XI.

Sua festa é celebrada no dia 14 de dezembro.

Quadro cronológico

1542 – Nascimento em Fontiveros(Ávila), em data desconhecida. Filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. São três irmãos: Francisco, Luís e João.

1545-1551 – Infância pobre e difícil: Quando morre o pai, a família emigra para Torrijos e não encontrando melhores condições de vida, volta a Fontiveros. Luís, o segundo dos irmãos, morre. Em 1551 fixam residência em Arévalo.

1551-1559 – Ocupou-se nos ofícios de carpinteiro, pintor, entalhador; acólito na igreja da Madalena.

1559-1563 – Estuda humanidades no colégio dos Jesuítas.

1563 – Recebe o hábito religioso dos Carmelitas, chamado Frei João de São Matias.

1564 – Entre o verão e o outono faz sua profissão religiosa.

1567- Ordenado sacerdote em Salamanca, provavelmente em julho; reza sua primeira missa em Medina, provavelmente em agosto, acompanhado de sua mãe. Setembro/outubro: Encontra-se pela primeira vez com Santa Teresa, em Medina, que o conquista para dar início à sua Reforma entre os frades.

1568 – Terminados seus estudos em Salamanca, volta a Medina; mantém colóquios com Santa Teresa; parte com ela rumo a Valladolid no dia 9 de agosto para a fundação das descalças e permanece lá até outubro, informando-se detalhadamente da nova vida reformada; no início de outubro vai a Duruelo (Ávila) para preparar uma ‘alquería’ para o primeiro convento descalço, e no dia 28 de novembro, primeiro domingo do Advento, inaugura nele a vida reformada de Carmelitas Descalços.

1569-1572- Formador dos descalços

1572 – Fim de maio chega a Ávila a pedido de Santa Teresa, como confessor e vigário do Mosteiro de Carmelitas da Encarnação, onde ela é priora.

1574 – …no dia 19 de março inauguram a fundação de Descalças, regressando a Ávila no fim do mês.

1575-1576 – …Os Calçados de Ávila levam-no prisioneiro a Medina, mas logo é libertado e restituído ao seu cargo por intervenção de Núncio.

1577-1578 – Encarcerado em Toledo – Na noite do dia é aprisionado e tirado violentamente de sua casinha da Encarnação de Ávila, e entre o dia 4 e 8 é levado ao Convento dos Descalços de Toledo, onde fica recluso no cárcere conventual durante oito meses; ali compõe seus primeiros poemas místicos.

1578 – Durante a oitava as Assunção, por volta das duas ou três horas, provavelmente no dia 17, foge do cárcere conventual se refugiando de dia no convento das Descalças. O resto do mês de agosto e todo o mês de setembro fica escondido na casa do Sr.Pedro González de Mendoza.

1578-1588 - Superior de Andaluzia

1578 - No início de outubro encontra-se em Almodóvar, onde participa do Capítulo dos Descalços, que começa no dia 9, e é eleito Vigário do Convento do Calvário(Jaén); de passagem para esta casa se detém em La Peñuela e nas Descalças de Beas; no início de novembro toma posse de seu cargo que durará sete meses e meio.

1580 – morre em Medina a mãe do santo.

1585 – No dia 17 de fevereiro inaugura a fundação de Descalças em Málaga;

1591Últimos sofrimentos e morte

Junho – do Capítulo de Madri sai sem nenhum cargo…o abandono e uma surda perseguição caem sobre ele.

10 de agosto – Chega como súdito a La Peñuela; um mês depois aparecem nele ‘umas pequenas calenturas’ que nunca mais cedem;

28 de setembro – Vai doente para Úbeda(Jaén), onde passa os últimos meses de sua vida.

Dezembro – à meia-noite de 6ª feira, 13, ao sábado, 14, morre santamente em Úbeda aos 49 anos de idade.

1675 – Em 25 de janeiro é beatificado pelo Papa Clemente X

1726 – O Papa Bento XIII o canoniza em 27 de dezembro.

1926 – Pio XI, o Papa Carmelitano, proclama-o Doutor da Igreja, chamando-o Doutor Místico, no dia 24 de agosto.

1952 – É proclamado Padroeiro dos poetas espanhóis, em 21 de março.

 

ORAÇÃO A SÃO JOÃO DA CRUZ

Nós vos agradecemos, ó Deus

Porque suscitastes na Vossa Igreja e

no Carmelo

São João da Cruz, sacerdote santo

Que caminhou sua vida ensinando

O caminho da oração.

Ele, que aqui na terra

Experimentou o sofrimento, a pobreza,

As incompreensões, e nunca desanimou,

Olhe as nossas necessidades

E obtenha a graça que lhe pedimos........

Confiantes na intercessão de

São João da Cruz e

Na Vossa Infinita

Misericórdia e amor de Pai,

Concedei-nos, percorrer

O caminho da santidade.

E que sejamos atendidos nos

Nossos pedidos. Amém.

Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.

  

Sergio

 

 

 

Sérgio R. Santos

Discípulo Missionário Kénosis

 

 

 

Comentários  

 
0 #1 Kénosis 17-02-2015 08:40
Um excelente ensino para quem quer aprofundar a doutrina de S. João da Cruz!
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