"Esvaziou-se a si mesmo..." (Flp 2,7)

Thursday, 19 September 2019

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Cântico Espiritual - Introdução PDF Imprimir E-mail

S.joao cruzComposto de 40 estrofes e dividido em 3 partes. 30 das estrofes do Cântico foram escritas no cárcere em  Toledo e as  demais  divididas em Baeza e Granada. A pedido das irmãs assistidas por João da Cruz que entram  em contato com a  obra, mas não a  compreendem, o santo começa uma explicação das estrofes.

Alguns estudiosos indicam que a inspiração de sua obra aconteceu muitas vezes sob um “estado teofático”, num “êxtase  prolongado”. Em  determinados momentos, ficava João da Cruz “tão absorvido em Deus (...) que tinha que golpear a parede  com o punho para que a dor o  devolvesse ao mundo sensível”.

Os teólogos em geral têm se dedicado mais à análise dos comentários e os críticos literários à análise da poesia. O Cântico  é considerada a mais bela de todas as obras de São João da Cruz.

O Cântico começou a ser escrito em 1578 e sua primeira versão completa foi terminada em 1584. Na obra destaca-se a necessidade de abandonar todos os nossos apegos numa atitude de total desprendimento de tudo o que Deus não é.

 Poema

O poema causa admiração e espanto e é impossível manter distância. O seu impacto é contagiante. Para João da Cruz, as “figuras,  comparações e semelhanças” que emprega em seu Cântico são tentativas e esboços para captar os segredos e mistérios que o  Espírito dá a conhecer. As almas que são “inflamadas” no amor de Deus conseguem “acessar” os umbrais do mistério por caminhos  que são inusitados.

 

Plano esquemático do Cântico Espiritual

 

  • A via purgativa (de purificação)

o   É tratada nas cinco primeiras estrofes

o   Reflete o momento inicial de busca

o   Caracterizado pela purificação da alma e da luta contra os desvios

 

  •  A via iluminativa (de iluminação interior)

o   Tratada pelo santo nas estrofes de 6 a 13

o   Expressam um maior crescimento na vida espiritual

o   Uma proficiência na prática das virtudes

 

  •  via unitiva ( de união com Deus)

o   Concentra a maior parte da obra - estrofes 14 a 40

o   Expressão superior da vida mística de união com Deus

 

Estas três vias revelam um caminho progressivo e ascensional: iniciam-se no momento em que a alma começa a servir a Deus até que atinja o último estado de perfeição, que é o matrimônio espiritual. As últimas canções são as do estado beatífico.

 

CÂNTICO ESPIRITUAL -  CANÇÕES ENTRE A ALMA E O ESPOSO 

Primeira estrofe 

Esposa

Onde é que te escondeste,

Amado, e me deixaste com gemido?

Como o cervo fugiste,

Havendo-me ferido;

Sai, por ti clamando, e eras já ido!

 

A via purgativa

O poema começa com o grito da amada: “Onde é que te escondeste, Amado e me deixaste com gemido” e a amada expõe aqui sua grande ânsia de amor, retomando a conhecida petição da esposa do Cântico dos Cânticos: “Mostra-me, ó amor de minha alma, onde pastoreias...” (Ct 1,7)

Fala-se aqui de um ocultamento do Amado, de alguém que se retrai e que não há como alcançar nesta vida a completa visão de Deus, mas mesmo que oculto, mas este mistério está gravado em cada alma (o Amado mora no seio da alma). Faz parte da trajetória purgativa da amada, buscar libertar-se de seus antigos hábitos, romper com as “distrações” que a afastam de seu objeto amoroso, alhear-se de todas as coisas e criaturas.O Amado habita o interior da amada, mas ela não o percebe pois ele está escondido. Ela necessita “sair” para dentro de si, e escondida em seu interior será capaz de encontrá-lo e senti-lo.

 

  • Onde é que te escondeste

Pede a alma a Deus que lhe mostre ou a encaminhe para o lugar onde se esconde. Deus é verdadeiramente um Deus escondido (Isaías) e para que a alma não vagueie em sendas infrutíferas terá de reconhecer que Deus está escondido no seu íntimo. Assim, querendo-o encontrar, convirá abandonar todas as coisas segundo a afeição e vontade, entrando em recolhimento dentro de si mesmo.

Santo Agostinho afirmou que não encontrava Deus fora de si, porque mal o buscava; buscava-o fora quando Ele estava dentro - daqui decorre que Deus está escondido na alma. O Reino de Deus está dentro de nós (Lucas) e nós somos o templo desse Deus (S. Paulo).

Ele está em nós do mesmo modo que nós não podemos estar sem Ele e grande é o contentamento da alma quando entende que Deus nunca dela se ausenta, esteja ou não no estado de graça.

Deseja Deus e adora-o na tua alma, porque se o fizeres fora de ti perder-te-ás, mas nunca esqueças que embora estando dentro de ti está escondido. As experiências mais elevadas não significam um estado de união e as piores securas não significam um estado de afastamento, não é uma busca sensível e sim de união, por isso a busca é interior na via de silenciar os sentidos sensíveis.

Se Deus está dentro de nós, como é que o não vemos?

Ele está escondido e para o encontrar havemos também de entrar escondidos no seu esconderijo e lá o encontrando não querer mais sair. Devemos esquecer todas as nossas coisas, afastando-nos de tudo, inclusivamente das criaturas, não sendo indiferente as realidades, pois a mística não é um afastamento do mundo e das criaturas, mas sim dar-lhes o devido valor. O caminho é escondendo-nos no nosso retiro interior do espírito, fechando a porta atrás de nós, abandonando a nossa vontade e recitando as nossas orações em segredo.

 Desta forma, veremos Deus.

A fé são os pés com que a alma se dirige a Deus e o amor é o guia que a encaminha. Deus é inacessível e escondido, e por mais que te pareça que o tens e o sentes e o entendes, sempre o hás-de ter por escondido e o hás-de servir escondido.  Chama-lhe Amado, porquanto Deus acode com maior presteza à alma que o ama. E a alma pode em verdade chamar-lhe Amado, quando está apenas com Ele, não estando apegada a nada que não seja Ele. Não o estando totalmente, deverá perseverar na oração, porque de Deus nada se alcança que não seja por intermédio do amor.

 

  • Amado, e me deixaste com gemido

Chamar Deus de amado, pois Deus atende mais facilmente os pedidos de quem o ama. Se permaneceres em mim...(Jo 5,7), poderá então chamar a Deus de Amado. Não tendo o coração preso as criaturas e coisas, ao exterior, pois a ausência do Amado causa um contínuo gemido ao amante. Nada amando fora dele, nenhum alívio recebe e a vida torna-se muitas vezes insuportável.

Aqui se conhece quem de fato ama verdadeiramente a Deus pois não encontra contentamento nenhum fora Dele. A satisfação do coração não se acha na posse das coisas e sim no despojamento, na pobreza espiritual para depender-se apenas de Deus, pois ”nós que temos as primícias do Espirito, gememos dentro de nós, esperando a adoção de filhos de Deus” (Rm 8,23), ou seja, gemidos de amor e de desejo de união.

 

  • Como o cervo fugiste

Nos cantares (Ct) , a Esposa (Alma) compara o Esposo ao cervo, por ser algo estranho e solitário e por ter o hábito de se esconder e aparecer. Tal como nas visitas que faz às almas e nas ausências que as faz sentir após as visitas, para as submeter a regime de provação e ensinar. A amada enamorada anseia por seu amor, mas Ele é como o cervo que escapa com rapidez, deixando-a “com gemido”. Mas como não pode mais descansar ou achar alívio longe de sua presença, como não pode suportar a dor de sua ausência, ela vive sob um “contínuo gemido”. Não é um desespero, mas sim uma esperança que não engana.

 

  • Havendo-me ferido

O desejo ardente de ver o Amado faz com que aumente a paixão quando a alma o vê abandoná-la sem que nem muito nem pouco se deixe compreender. As feridas de amor são provocadas por toques escondidos de amor, e que ao modo de dardos de fogo ferem e trespassam a alma, abrasando-a em fogo e chama de amor. A alma por amor reduz-se a nada, nada sabendo senão amar, e julgando intolerável o rigor que o Amor usa para com ele. Não porque a tenha ferido, mas porque a deixou penando e muito sofrendo. Por isso, diz a alma: deixando-me assim ferida, morrendo com feridas de amor por ti, te escondeste com a ligeireza de um cervo.

As feridas produzidas pelo Amado são como “toques de amor”, que não deixam arrefecer na alma sua viva lembrança e é animada por este “apetite” que a amada sai em busca do Amado, “na força do fogo produzido pela ferida”. Esta dor aumenta nela a ânsia de ver Deus e a queixa não é pelas feridas e sim pela ausência.

 

  • Sai, por ti clamando, e eras já ido!

Nas feridas de amor a cura só pode ser realizada por quem feriu daí clamar a alma pelo Amado. A Esposa ficou ferida por não ter encontrado Deus e vai penando na sua ausência, já que a Ele se havia entregue e não encontrou a esperada correspondência amorosa. Este pesar e sentimento de ausência de Deus costuma ser tão grande nos que se vão aproximando do estado de perfeição, que se o Senhor lhes não acudisse, acabariam por morrer. E a decisão de sair guarda consigo exigências bem precisas: significa abandonar “o modo rasteiro de amar” e voltar-se para o “elevado amor de Deus”, num estado de permanente enamoramento.

Este sair entende-se espiritualmente de duas formas: a primeira: saindo de todas as coisas o que se faz por aborrecimento e desprezo delas e a segunda: de si mesmo por esquecimento próprio. É um sair objetivo: sair para buscar, clamando pelo Amado

 

Onde é que te escondeste,

 Amado, e me deixaste com gemido?

 Como o cervo fugiste,

 Havendo-me ferido;

 Sai, por ti clamando, e eras já ido!

 

Fonte: Obras Completas de São João da Cruz  

 

 celio

 

 Célio Mendes

 Formador Geral da comunidade Kénosis

 

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