Vida de Oração Imprimir

Vida OracaoNo Sl 41,3 encontramos o salmista expressando seu desejo mais íntimo: "Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus?" e em apenas um versículo, inspirado por Deus, consegue expressar o desejo de toda a humanidade: contemplar a face de Deus.

Mesmo que muitos, conscientes ou inconscientes, se afastem dessa verdade, nós sabemos que somente em Deus encontramos paz, equilíbrio, verdade, felicidade, satisfação, ou seja, a plena realização humana. Muitos buscam de formas errôneas e em lugares diversos essa plenitude do seu ser, mas somente em Jesus Cristo, caminho, verdade e vida ( Jo 14,6) nos saciaremos totalmente.

Santa Teresa, que sendo mestra de oração, não deixou um método propriamente dito, via na oração o meio mais perfeito para buscar a face de Deus e resume a oração como "um trato de amizade com Deus, de estar a sós com Aquele que sabemos que nos ama"[1] e exortava que para manter essa amizade, para contemplar a face de Deus, é necessário uma "uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta" [2], ou seja, a união com Deus.

Assim também nos ensina a santa Igreja, no CIC §2744 quando diz que "rezar é uma necessidade vital. Quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena", ou seja, quem reza já nesta vida, um dia contemplará Deus face-a-face e ainda no CIC a Igreja nos recorda que pensar (uma forma de oração) em Deus é mais necessário do que o próprio respirar. Sem uma vida de oração, sem um contínuo trato de amizade com Deus, deixamos esse desejo interior se esfriar e saindo da presença de Deus começamos a desejar a lavagem do mundo ( Lc 15,16). Daí a ênfase que Teresa dá a oração: determinada determinação, de rezar sem cessar ( 1Ts 5,17) e buscar a meta empenhando-se sempre mais ( Fl 3, 12), com jejuns, penitências e mortificações, pois "oração e vida regalada não andam juntas" [3]. Para tanto, é necessário impormos "ritmos de oração destinados a nutrir a oração continua." [4]

Um verdadeiro orante se faz com esforço, desejo, busca contínua, a oração "não se reduz ao surgir espontâneo de um impulso interior; para rezar é preciso querer; é indispensável aprender a rezar" [5] e nesse caso precisamos fazer como os apóstolos e clamar "Senhor, ensina-nos a orar" (Lc 11,1). Também pedir o Espírito Santo, que é a “água viva que jorra no coração do orante” [6], "é a Unção que impregna todo o nosso ser, é o Mestre interior da oração cristã." [7]

A Doutora Teresa ensina-nos "que o mais terrível engano que o demônio pode fazer é temermos a oração” [8], ou seja, nos induz a deixarmos a oração ou a termos uma oração superficial, desconcentrada, alienada e sem fundamentos, pois "o demônio sabe que lhe esta perdida a alma que é perseverante na oração" [9]. Ainda sobre nosso inimigo, a santa diz que a "melhor arma para se descobrir as obras ocultas do demônio é a oração", [10] e por isso insiste em "não voltar atrás quem começou a ter uma vida de oração" [11].

No CIC §2609 aprendemos que "o coração assim decidido a se converter aprende a orar", traduzindo: quanto mais decidido em estar com Deus, mais minha vida vai se conformando a Jesus e mais poderei dizer como São Paulo, "já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim ( Gl 2,20).” Assim a vida de oração, "é a vida do coração novo e deve nos animar a cada momento" [12], não para fugir do mundo, se isolar, mas para tornar-se sal e luz ( Mt 5,13-14 ), fermento na massa (Mt 13,33). Quanto mais rezo, mais tenho sede e desejo de rezar e o inverso também é verdadeiro.

Uma vida de oração enraizada na amizade com Cristo permite-nos mostrar a beleza de ser cristão, dá-nos força, sabedoria, discernimento para os acontecimentos da vida, livra-nos das frustrações e decepções inevitáveis por causa da nossa fraqueza e limitação, enche-nos de ousadia e confiança no anúncio da Boa Nova, faz de nós tudo para todos. (1Cor 9,22).

Pela verdadeira oração somos levados a um desapego das coisas temporais e inseridos nos mistérios divinos, temos a certeza que nosso lugar não é aqui, que somos cidadãos do céu (Fl 3,20), abra-se diante de nós a porta estreita e não poupamos esforço para entrar ( Lc 13,24).

A oração infunde-nos uma certeza da vida eterna, da salvação adquirida pelo sacrifício de Cristo, transforma nosso coração ingrato num constante louvor, faz que vejamos o mundo e os irmãos com os olhos e sentimentos de Cristo.

Nossa vida deve ser orientada a partir da oração: sonhos, projetos, apostolado, compromissos, vocação, família, trabalho, etc., ou seja, tudo em nós deve estar em consonância com o que rezamos e cremos, caso contrário continuaremos a margem, o Evangelho apenas uma linda mensagem, o céu uma utopia, nossa vida uma hipocrisia.

Jesus nosso Senhor deu-nos o exemplo e em várias situações e momentos decisivos vamos Vê-lo subir ao monte e passar a noite em oração, demonstrando assim que apenas nossa razão e sentimento são insuficientes para a correta decisão. É preciso rezar.

Diante de tamanha importância em nossa vida, porque tão comum as dificuldades e abandonos para termos uma constante e frutuosa vida de oração?

Na próxima semana falaremos um pouso sobre essas dificuldades, enquanto isso partilhe seus sentimentos e experiências em nosso blog.

Que a Virgem das Dores nos guie nessa ditosa ventura!

Santa Teresa, rogai por nós!

[1] Livro da Vida - Capítulo 8
[2] Caminho de Perfeição - Capítulo 21
[3] Caminho de Perfeição - Capítulo 4,2
[4] CIC §2698
[5] CIC §2650
[6] CIC §2652
[7] CIC §2672
[8] Livro da Vida - Capítulo 7
[9] Livro da Vida - Capítulo 19
[10] Caminho de Perfeição – Capítulo 7
[11] Caminho de Perfeição – Capítulo 23
[12] CIC §2697

 

celio

 

 Célio Mendes

 Formador Geral da comunidade Kénosis